E o tempo passa. A rotina consome. Uma avenida vazia. Alguns faróis vermelhos. Uma vontade de largar tudo. E um dia, o telefone toca.
- Alô?
- Oi..
- Oi.. Faz tempo.
- Sim. Queria saber de você.
- Estou bem. E você?
- Bem..
Sabe que venho me perguntando quanta sensibilidade é necessária para perceber um verdadeiro amor. Diziam-me que amamos as pessoas por elas serem aquilo que procuramos em um momento de solidão: um cheiro, um mistério, uma paz transmitida em ondas cor de anil. Como o céu. Anil como o céu.
- Como você pôde?
- Eu sei. Me desculpe..
- Desculpas. Desculpas.. Quantas vezes mais?
- Você não entende.
- Então explica.
- Não posso..
- Não pode?
Difícil perceber essa coisa de amar. Não há explicação. E não serei autoritária e ditadora te dizendo que o amor é isso ou aquilo. Não me pergunte, e não te cobrarei resposta alguma também. Pois uma vez que pergunto, sentir-se-á obrigado a explicar-se, e assim explicaria uma coisa que não pode ser explicada. Entende? O amor não se explica.
- Não. Não posso..
- E ligou pra isso?
- Não.. Liguei pra ouvir sua voz.
- Já ouviu. Pronto?
- Não.
- O que mais então?
Assim como não se explica também a paixão que precede o amor. Fogo, desejo. Inquietude deslumbrada que remete à tempestade de fervores de um ser apaixonado. Um coração que pulsa, explode em mil palpitações. A vontade insana de ser e ter sem limites. A vontade de contrariar as leis da física e fazer dois corpos ocuparem um mesmo espaço. O calor, o suor, a respiração ofegante..
- Posso te visitar?
- E ir embora de novo?
- Desculpe.
- Eu também.. Silêncio, silêncio e mais silêncio.
- Está chovendo.
- Sim, está.
- Você nunca gostou da chuva.
- Sim, eu sei.
- Posso lhe fazer companhia.
- Pode?
- Sim.
- E depois?
- Depois..
- Eu já sabia. Foi um erro, eu tenho que desligar, eu..
- Eu te amo.
- Então venha.
- Sim, estou à caminho.
- E Futuro..
- Sim?
- Eu sempre te amei.
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